Buteco Itatiba

Guia dos Bares de Itatiba SP produzido pelo jornalista Rogério Scavone

3/5/08

A heróica resistência dos velhos armazéns

 

 

 

 

Entre as primeiras lembranças de minha distante infância, guardo com especial carinho as cores, sons, cheiros e sabores da “Venda do Paschoalão”, o nome popular do armazém de meu avô paterno, Paschoal Scavone, que ficava na Rua Camilo Pires.
Os armários e prateleiras abrigavam de tudo, de mantimentos à utensílios domésticos, de ferramentas à produtos importados, de calçados à chapéus; numa confusão deliciosa, principalmente para um garoto travesso.

 

 

A cidade já teve muitos estabelecimentos desse tipo como o armazém do Degani, do Carbonari, do Panzarin, do Mazzutti entre muitos outros. Hoje os estabelecimentos desse tipo estão cada vez mais raros. Os poucos que sobrevivem enfrentam grandes dificuldades no disputado e voraz comércio do século 21.
Mas é inegável que as “vendas” sobreviventes ainda guardam um certo charme, associado às coisas simples e boas do interior. Muitas funcionam como verdadeiras lojas de conveniência atendendo a população dos bairros e das regiões em que estão instaladas, comercializando pãozinho, leite, frutas, legumes, frios, produtos de limpeza, bules, panelas e até cachaça.

 

 

 

 

 

Foi o que conferimos no Armazém Bertonha, na Rua Barão de Itapema, que já está funcionando há mais de sessenta anos. Primeiro com Carlos, depois com seu filho Eugênio e durante muitos anos com a esposa deste, Maria Nardin Bertonha, que sempre contou com o apoio do filho e das filhas e do genro Edson.
Edson conta que Armazém Bertonha sucedeu o estabelecimento de Nenê Quaglia, outra referência nas vendas itatibenses. A clientela é variada e tem mudado muito nos últimos anos. Mas o sinal do progresso da cidade não impede a reunião freqüente de amigos para um bate papo no final da tarde, acompanhado de uma cerveja gelada ou de um branquinha especial.

 

 

No fundo da venda fica uma antiga cartola de carvalho que guarda por alguns meses a cachaça produzida pelo Sérgio Franciscon, no Bairro do Morro Azul, que é reservada para os clientes especiais, que sabem apreciar a bebida de qualidade. Edson também é craque no preparo da lingüiça caseira, feita de lombo de porco, que fica pendurada nos varais para secar e ganhar sabor.

 

 

Entre uma prosa e outra vamos matando a saudade, a sede e a fome, saboreando lembranças, cachaça, lingüiça e histórias da Itatiba antiga, das reuniões festivas dos negros no Largo do Rosário, tão próximo, e da rua de terra que terminava na estrada para Bragança. Pedaços da memória preservados nos heróicos armazéns que sobrevivem ao tempo.

 

Rogério Scavone é jornalista. E-mail: r.scavone@terra.com.br
Blog: http://butecoitatiba.blog.terra.com.br

 

Publicado no Jornal de Itatiba em 19.04.2008

criado por r.scavone    10:08 — Arquivado em: Sem categoria
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